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Um universo em expansão

Ao adentrar o mundo das letras, aposentada transpõe horizonte tangível apenas em sonhos

Giselly Abdala

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“A-e-i-o-u”, dizem os rabiscos desenhados no topo da primeira página do caderno. Foram estes os primeiros rascunhos de Donaria Cremencia, de 68 anos, que há pouco menos de um ano ingressou na Oficina de Leitura do Núcleo ADRA de Desenvolvimento de Artur Nogueira.

Criada na roça com os outros nove irmãos, não pôde ir à escola. Não por lhe faltar vontade ou interesse. Mas por que o direito ao entendimento das letras e palavras fora concedido pelo pai apenas aos filhos do sexo masculino. “Eu e minhas irmãs tinha que ir catar café, eu chorava querendo estudar”, lembra.

Aos 20 se casou. A rotina, agora, era ocupada com o cuidar dos filhos e o trabalho na roça. Secundário, o sonho da leitura e da escrita fora, mais uma vez, engavetado. E em seu cotidiano, as palavras escritas ao redor não podiam lhe dizer nada. Aos olhos de Donaria, não havia informação nelas, apenas formas sem significado. Códigos indecifráveis.

Atividades simples como ir ao banco, ao supermercado ou até receber correspondências só lhe eram possíveis quando acompanhada dos filhos. “Tinha sempre que pedir a ajuda de alguém, mas as pessoas não gostam muito”, explica.

E sendo-lhe as letras estranhas, toda uma vivência deixou de existir e ser possível. Quando mais nova, Donaria não pôde abandonar o pesado labor das colheitas ainda que outras propostas tenham surgido .

“Me chamaram pra trabalhar como vendedora em uma loja e até de supervisora em uma estufa, mas tive que negar; com muita vergonha, falei que não sabia ler nem para marcar as vendas no papel”, conta.

Os números ela conhecia. Aprendera a contar e a olhar as horas com o pai. Sabia também desenhar sua assinatura, ainda que sem reconhecer onde começavam e terminavam as letras. Aprendeu quando o carimbo feito com o polegar IMG_2975já não atestava ser quem era para receber o pagamento do serviço na roça. “Só vai receber salário quem assinar o nome”, foi o veredito do patrão. Com a certidão de nascimento em mãos, Donaria recorreu à vizinha, que lhe ajudou a decorar as curvas que formavam seu nome.

Aleijamento Social

No Brasil, esta situação é – quase – regra para parte da população. Segundo o último levantamento divulgado pela Unesco, cerca de 14 milhões de brasileiros adultos não aprenderam a ler e a escrever. Número que coloca o país em 8º lugar no ranking de analfabetismo mundial. Uma questão não apenas educacional, mas, sobretudo, econômica e social.

Isto porque, segundo o  cientista social Claudiovan Ferreira da Silva, a ausência de leitura configura toda uma situação de vida, onde a dependência e a subserviência estão inerentes, e o exercício da cidadania é extremamente comprometido. “Um sujeito que não foi alfabetizado vive socialmente aleijado até mesmo para exercer seus direitos, usufruindo de uma subcidadania”, explica.

A oficina

Há pouco menos de um ano, Donaria ingressou na Oficina de Leitura, um projeto desenvolvido no Núcleo ADRA de Desenvolvimento de Artur Nogueira, a Casa ADRA. Através da contação de histórias, o mesmo visa estimular a leitura e escrita para mulheres adultas que conhecem as letras, mas têm dificuldades em combiná-las ou interpretá-las. 

Ainda que não sejam classes de alfabetização, a oficina também oferece o suporte da voluntária e terapeuta ocupacional Janete Ferrolho nos processos de aprendizado. E tem funcionado.

“Minha maior alegria é essa: poder ajudar a abrir e a mostrar um novo mundo de possibilidades para elas”, comemora Janete.

Além do incentivo à leitura e apoio à escrita, a oficina propõe o fortalecimento de interpretação de textos e pensamento crítico através de rodas de conversa e debate sobre o conteúdo lido. Momento onde mesclam a este suas histórias pessoais.

A coordenadora da Casa ADRA, Dalva Pacanaro, é, para elas, o ponto de referência. De origem humilde, teve de interromper seus estudos na infância, retornando para a sala de aula apenas aos 50 anos de idade. Hoje Dalva cursa o ensino superior em Serviço Social.

“Quando essas mulheres conhecem as palavras e seus significados, e se permitem ser mudadas pela leitura, começam a entender melhor o mundo; logo, se tornam cidadãs mais atuantes”, defende a coordenadora.

No dia desta entrevista, houve ditado. Um terror para Donaria. Mas não desta vez. “Da uma olhada aqui, foi a primeira vez que acertei tudo, eu tô muito feliz”, expressa sua alegria nas palavras, olhos e boca.  

“Telha – telhado – coalhada – malhado – chuveiro – chaveiro – chinês – chapa”, dizem as últimas palavras escritas no caderno. Estas precedem longas linhas e páginas em branco que esperam por ser preenchidas pelas novas sentenças que Donaria ainda aprenderá.

Palavras possuem asas e ela agora sabe: fora feita para voar.