O Futuro da Adoção Tardia

 em Espírito Santo, Notícias

Um panorama do cenário da adoção de adolescentes no contexto do Dia Mundial da Juventude.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) atualizado neste mês, as casas de acolhimento e instituições registram mais 31 mil crianças e adolescentes em suas dependências. Deste total apenas 5 mil estão, efetivamente, disponíveis para adoção. Dentro desta soma, os casos de crianças e adolescentes com mais de 3 irmãos, totalizam mais de 1,6 mil casos em nosso país.

Discutir a adoção de crianças e adolescentes nos dias atuais não é uma tarefa fácil. Esse fenômeno, torna-se ainda mais complexo pelo fato de que, em sua grande maioria, ocorre após a decisão de fatores degradantes, como por exemplo: maus tratos, descaso, e o mais relatado, abandono. Este último, ao longo dos anos na história do nosso país, ficou enraizado no conceito de que sempre ocorre relacionado à classe mais pobre.

Em 2015, um histórico de maus tratos e de negligência, foi registrado em um barraquinho de madeira, no município de Cariacica. A criança, que atualmente possui 7 anos de idade, foi encaminhado para uma Casa de Acolhimento para Crianças e Adolescentes que a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) administra em parceria com o município. A retirada do seio familiar ocorreu devido a falta de estrutura de moradia em que aquela criança se encontrava, pelos genitores serem usuários de drogas, e por possuir verminose.

No início do acolhimento os familiares se comprometeram a ajudar aos pais da criança, e assim ela pôde retornar ao lar. Mas em 2017 a história se repetiu. E aquele barraquinho que antes possuía uma criança, desta vez cinco crianças foram retiradas daquela família pelos mesmos motivos de negligências, genitores usuários de entorpecentes, maus tratos, falta de higiene e de organização da residência. Em 2018 uma nova criança nascia naquele lar desprovido de condições para a criação de crianças, sendo o mesmo encaminhado para a mesma Casa de Acolhimento que os seus irmãos se encontravam.

Durante todo o processo em que as crianças permaneciam no abrigo, foram feitas várias tentativas de retorno com a família de origem ou extensa. Quando a equipe visualizou a impossibilidade de retorno, foi sugerido ao juizado da Vara da Infância a destituição do poder familiar e colocação em família substituta, ou seja, adoção. Em casos como este, são feitas buscas e tentativas no cadastro de adoções municipais. Quando não são encontrados famílias que se interessam pelo perfil da criança, este cadastro se torna regional, e depois nacional. Quando não são encontrados famílias disponíveis no Brasil, é feita uma busca pela CEJA (Comissão Estadual Judiciária de Adoção), órgão o qual procura casais internacionais com o objetivo de permanecer todo o grupo de irmãos em uma mesma família. Porém, quando não é possível a adoção no mesmo lar, tenta-se o máximo mantê-los próximos.

Existem muitas dúvidas e questionamentos quando o assunto é adoção tardia. Para os pretendentes à adoção, normalmente é criado uma onda de insegurança e medo no que se refere ao histórico de vida, tanto do ponto de vista físico quanto emocional. Já pelo lado da criança, há em seu coração o medo do desconhecido sobre o que a sua nova vida irá lhe proporcionar, além do receio de acontecer uma nova rejeição ou descuido.

 

No dia 5 de fevereiro deste ano, a CEJA informou à Casa de Acolhimento que havia encontrado duas famílias amigas italianas que aceitaram realizar a adoção desses seis irmãos capixabas. Os casais italianos residem próximos uns dos outros, e cada um irá adotar três dos irmãos.

Devido a pandemia do Corona vírus, o inicio da aproximação das famílias com as crianças se atrasou, mas em agosto o processo teve sua continuidade, e assim que os aeroportos do Brasil e Itália reabriram, as famílias puderam pisar nas terras brasileiras.

“Acompanhar os olhares e as falas de cada criança ao saber que vão conhecer suas novas famílias e começar a planejar como será sua vida, é um de emoções para a equipe técnica. Uma conquista de todos os profissionais envolvidos, pois é o fechamento de um ciclo dentro do Serviço de Acolhimento e a abertura de novo ciclo, iniciando a construção dos vínculos afetivos com a família que planejou e esperou por cada um deles. Dedicaram tempo em conhecê-los rompendo com a distância geográfica, dedicando carinho e muito amor em conhecer cada filho que gerou no coração”, relatou a coordenadora local e colaboradora da ADRA, Maykiane Shiavo.

As crianças foram entregues nas dependências da CEJA no dia 17 de setembro, quando iniciaram o estágio de convivência no Brasil, o qual terá a duração de um mês com acompanhamento da equipe técnica. Após este período de adaptação, as famílias retornarão à Itália, começando enfim a oportunidade de recomeço na vida destas crianças que tiveram seus direitos violados.

Como comenta a coordenadora gerencial das Casas de Acolhimento para Crianças e Adolescentes em Cariacica, e colaboradora da ADRA, Cláudia Brandão: “Nós participamos de todas buscas de retorno para a família de origem, mas se esgotaram todas as tentativas, até eles serem destituídos. Hoje a gente vê que com a possibilidade de irem para fora do país eles terão a oportunidade de um recomeço. Não tem preço que pague esta sensação de dever cumprido. Ao fitarmos cada um deles, nós percebemos um sorriso diferente, um olhar de esperança, principalmente no almoço de despedida quando estavam ansiosos porque finalmente conheceriam a sua nova família, o seu novo lar, e teriam o seu recomeço”, afirma.

 

Dia da Juventude no Brasil

Em 1985, a Organização das Nações Unidas (ONU) fixou um dia no calendário gregoriano voltado único e exclusivamente para a idade mais empolgante. O dia 12 de agosto foi instituído como o Dia Internacional da Juventude, decretado com a Lei nº 10.515, de 11 de julho de 2002. Mas os jovens do Brasil ganharam outro dia para comemorar, sendo comum no dia 22 de setembro a comemoração dos jovens que fazem parte do país.

Um dos motivos pelos quais se comemora o dia da juventude no Brasil, é para conscientizar a sociedade para dar oportunidades para o desenvolvimento dos jovens. Essas duas famílias estão dando a oportunidade para esses seis irmãos de terem um lar, de receberem amor. Através de um lar estável, onde possui carinho, comprometimento e cuidado, esses jovens terão acesso a outras oportunidades na vida.

Essa história nos dá o exemplo de como a sociedade pode se mobilizar para oferecer oportunidades aos jovens. No caso das famílias italianas que adotaram estas crianças e adolescentes, eles estão dando a oportunidade para estes irmãos de terem um lar estável, proporcionando essa futura juventude o desenvolvimento como cidadãos do bem, além da possibilidade de realizar ações que beneficiarão a outros no futuro.

 

Chrissye Neto Bettoni

Postagens Recentes