Projeto da ADRA transforma saudade da distância em acolhimento para migrantes em RO

Em Porto Velho, projeto atende até 50 pessoas por dia e transforma a dor da distância em reconstrução de vínculos, trabalho e dignidade

No olhar de quem deixou tudo para trás, a saudade costuma ser silenciosa. Ela mora nas telas dos celulares, nos áudios de voz enviados ao amanhecer, nas chamadas de vídeo que tentam substituir abraços que ficaram do outro lado do continente. No Dia Internacional da Saudade, celebrado em 30 de janeiro, essa ausência ganha contornos ainda mais profundos entre migrantes e refugiados acolhidos pela Casa de Passagem Esperança, projeto mantido pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), em parceria com o poder público em Porto Velho.

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Criada em 2022, a Casa de Passagem tornou-se um ponto de transição entre o desamparo e a possibilidade de recomeço. Ali, até 50 pessoas por dia, homens, mulheres, famílias inteiras e crianças, encontram abrigo, alimentação, acompanhamento psicológico e social, além de apoio para regularização documental e inserção no mercado de trabalho. O local também oferece suporte psicológico e social, tornando-se um ponto de reconstrução emocional para quem chega após longas jornadas de migração.

Projeto atende cerca de 50 pessoas por dia. (Foto: ADRA)

“Chegam pessoas que passaram dias caminhando, exaustas, muitas vezes em situação de rua. Nosso primeiro cuidado é com a saúde física e emocional, porque ninguém consegue planejar o futuro sem estar minimamente inteiro”, explica Daniel Lessa, diretor da ADRA no Rio Grande do Norte, responsável pelo acompanhamento do projeto. Segundo ele, a ampliação recente da capacidade, de 40 para 50 acolhimentos diários, reflete o aumento do fluxo migratório na região Norte.

Bárbaro Vega Ortega é cubano, foi acolhido pelo projeto e hoje faz parte da equipe de apoio da instituição. (Foto: ADRA)

Entre os corredores da Casa de Passagem, a saudade aparece de formas diferentes. Em alguns, vira silêncio. Em outros, vira força. É o caso do cubano Bárbaro Vega Ortega, hoje jardineiro do próprio espaço que o acolheu. Aos 52 anos, ele deixou Cuba há três anos em busca de algo simples e ao mesmo tempo imenso: a chance de viver com dignidade.

“Lá é muito difícil realizar sonhos. Aqui encontrei ajuda, incentivo e oportunidades”, conta. Ao chegar ao Brasil, Bárbaro passou por Boa Vista, em Roraima, enfrentou empregos precários e decidiu seguir até Porto Velho após ouvir falar do serviço de acolhimento. Entrou na Casa de Passagem como beneficiário, colaborando como podia. Com o tempo, aprendeu português, regularizou documentos e assumiu uma vaga de trabalho. Hoje, além de cuidar dos jardins, ajuda outros migrantes a entender formulários, direitos e caminhos possíveis, especialmente aqueles que, como ele, falam espanhol.

“Quando eles chegam, vêm com medo. Eu explico, converso, digo que não estão sozinhos. A gente se reconhece porque somos latinos”, afirma. A saudade dos filhos, netas, irmã e pais que ficaram em Cuba, no entanto, permanece. “Não é a mesma coisa uma ligação e um abraço. Hoje consigo falar com eles, mas não posso vê-los. Isso dói.”

A história de Bárbaro se repete em centenas de trajetórias que passaram pela Casa de Passagem Esperança. Só no ano passado, mais de 700 estrangeiros chegaram a Porto Velho sem recursos. Muitos saíram com emprego, moradia e novos planos. Outros seguiram viagem para reencontrar familiares em diferentes regiões do país. O tempo de permanência varia conforme cada caso, podendo ultrapassar 30 dias, sempre acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, assistentes sociais, educadores, pedagogos e profissionais fluentes em espanhol.

Clima de amizade e alegria faz parte dos encontros do projeto. (Foto: ADRA)

“Trabalhamos o indivíduo de forma integral: saúde, emocional, habilidades profissionais. Depois, buscamos parcerias com o comércio e a indústria local para favorecer a empregabilidade”, explica Rivailton Matos Ribeiro Júnior, da coordenação da Casa de Passagem. Para ele, o espaço vai além do acolhimento emergencial. “É um lar onde a dignidade é restaurada. Pais voltam a sustentar suas famílias, mães solo encontram apoio para recomeçar, crianças têm um lugar seguro enquanto os responsáveis trabalham.”

Em datas como o Dia Internacional da Saudade, o sentimento que atravessa essas histórias ganha ainda mais peso. Mas, dentro da Casa de Passagem Esperança, ele não paralisa. Ao contrário: convive com a esperança. “Cada pessoa é protagonista da própria história”, resume Rivailton. “Nós apenas caminhamos junto, oferecendo condições para que o futuro seja possível.”

Ambiente é pensado para oferecer conforto e segurança aos beneficiários. (Foto: ADRA)

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