Centro POP Miguilim, executado pela ADRA, oferece acolhimento, alimentação e acompanhamento a jovens em situação de vulnerabilidade e transforma histórias como a de Sandro, que hoje trabalha e vive com autonomia
Antes de voltar à escola, Sandro, nome fictício utilizado para preservar sua identidade, precisou voltar a acreditar que teria um futuro.
Leia também:
Projeto da ADRA transforma saudade da distância em acolhimento para migrantes em RO
Ele tinha 14 anos quando chegou ao Centro POP Miguilim, em 2020. Dormia nas ruas havia cerca de três meses. Já tinha passado por uma unidade de acolhimento institucional, havia sido submetido ao trabalho infantil e, depois de sofrer rejeição dentro da própria casa, passou a viver sem endereço fixo.

O trabalho desenvolvido busca oferecer acolhimento, proteção e novas perspectivas a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. (Fotos: Divulgação)
“Ela me mandou sair de casa”, relatou, ao lembrar o momento em que foi expulso pela mãe.
Na rua, Sandro foi exposto à exploração sexual, intensificou o uso de drogas e contraiu o vírus HIV. Em meio à sucessão de perdas e violências, pensou em tirar a própria vida.
A história dele é uma entre as muitas acompanhadas pelo Centro POP Miguilim, unidade socioassistencial criada em 1993 em Belo Horizonte e executada pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.
O serviço é voltado ao atendimento de crianças e adolescentes de até 18 anos que utilizam as ruas como espaço de moradia, sobrevivência ou trabalho infantil.
Segundo a psicóloga e coordenadora do centro, Luísa Coelho, o objetivo é interromper ciclos de desproteção e criar condições para que esses jovens reconstruam suas trajetórias.

Por meio do acompanhamento contínuo, o projeto contribui para a reconstrução de vínculos e o acesso a direitos fundamentais. (Fotos: Divulgação)
“O principal impacto está na retomada do autocuidado, no acesso à alimentação adequada e à saúde, e no fortalecimento da autoestima. Eles passam a se reconhecer como sujeitos de direitos e a construir novas perspectivas de vida”, afirma.
O Centro POP Miguilim tem capacidade para atender até 20 crianças e adolescentes por dia. Muitos chegam por demanda espontânea. Outros são encaminhados por escolas, serviços de assistência social ou abordados diretamente nas ruas por equipes especializadas.
No local, recebem acompanhamento psicológico e social contínuo. Também têm acesso a refeições diárias, espaço para higiene pessoal, atividades educativas e oficinas de arte, música e grafite.
O serviço atua ainda na regularização de documentos, reinserção escolar, acesso à saúde e fortalecimento de vínculos familiares.
“Muitos chegam sem perspectiva e passam a construir novas referências. A rua deixa de ser o único espaço possível, e outras trajetórias começam a se tornar viáveis”, diz Luísa.
Entre a rua e a reconstrução
A trajetória de Sandro foi marcada por sucessivas rupturas.
A guarda havia sido retirada da mãe em razão do uso abusivo de álcool e drogas. Depois de um período em acolhimento institucional, passou a viver com um tio, onde foi submetido ao trabalho infantil. Sem proteção familiar, retornou para a casa da mãe, mas acabou expulso.
Na rua, encontrou exposição constante à violência e à exploração. O vínculo com o Centro POP Miguilim começou naquele momento de maior fragilidade.
A equipe passou a acompanhá-lo e construiu, junto com ele, um plano de atendimento individual. O processo foi gradual e incluiu acesso a tratamento de saúde, retorno à escola e participação em cursos de qualificação profissional.
Ao longo do acompanhamento, Sandro ingressou no mercado de trabalho como jovem aprendiz.
Hoje, aos 19 anos, trabalha como atendente, com carteira assinada, e vive com autonomia. Foi desligado do serviço após cumprir as metas estabelecidas em seu plano de atendimento.
Sua trajetória é considerada um exemplo de superação pela equipe.
Reconstrução que vai além da assistência

As ações promovem inclusão social e fortalecem a autonomia de crianças e adolescentes atendidos pelo serviço. (Fotos: Divulgação)
De acordo com a coordenação do Centro POP Miguilim, as mudanças observadas nos jovens atendidos envolvem aspectos objetivos e subjetivos.
Crianças e adolescentes passam a frequentar a escola com maior regularidade, reduzem ou rompem com o trabalho infantil e acessam direitos antes negados. Também apresentam melhora na autoestima e no cuidado com a própria saúde.
“A principal oportunidade é a possibilidade de desenvolver uma visão positiva de si mesmos, de encontrar respeito e construir um futuro diferente”, afirma Luísa.
O nome Miguilim foi inspirado no personagem criado por João Guimarães Rosa, símbolo de um olhar que se transforma.
Assim como na literatura, o trabalho desenvolvido no centro busca ampliar o horizonte de crianças e adolescentes que cresceram em meio à ausência de proteção.
Em muitos casos, o primeiro passo dessa transformação acontece longe das ruas, e começa com algo que, para eles, nem sempre foi garantido: um lugar onde possam permanecer.



