ADRA reúne equipes de oito estados para criar referências nacionais de acolhimento

Instruções operacionais previstas para novembro vão orientar serviços destinados a pessoas em situação de rua e a crianças e adolescentes afastados do convívio familiar

Uma receita guardada na memória pode ajudar uma criança afastada de casa a reconstruir vínculos com a própria história. Em Minas Gerais, uma atividade chamada “Comida Afetiva” utiliza lembranças familiares como parte do trabalho realizado com crianças e adolescentes acolhidos. Práticas como essa agora integram uma discussão nacional sobre o que pode ser compartilhado, adaptado e incorporado aos projetos da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA).

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Entre os dias 13 e 15 de julho, 26 profissionais participaram do 1º Encontro Nacional de Equipes de Projetos da ADRA Brasil. Realizada no Centro de Treinamento da Igreja Adventista, em Cotia, São Paulo, a programação reuniu representantes do Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rondônia, Santa Catarina e Paraná.

Os participantes atuam em duas frentes: serviços voltados à população em situação de rua e unidades de acolhimento institucional de crianças e adolescentes.

O encontro presencial foi a quarta etapa de um trabalho iniciado em abril. Desde então, dois Grupos de Trabalho se reúnem mensalmente para discutir como qualificar os serviços e estabelecer referências comuns para a atuação da ADRA em diferentes regiões do país.

Do problema ao resultado

Profissionais de diferentes regiões participaram do 1º Encontro Nacional de Equipes de Projetos. (Foto: ADRA)

Durante as reuniões on-line, os profissionais receberam capacitação sobre a Teoria da Mudança, metodologia que busca organizar o caminho entre uma atividade realizada e a transformação que ela pretende produzir.

Na prática, as equipes identificam os problemas enfrentados pelas pessoas atendidas, analisam as ações desenvolvidas, os resultados esperados e os fatores que podem facilitar ou dificultar esse processo.

No encontro presencial, os participantes concluíram a construção das chamadas cadeias causais. Também discutiram as “atividades de propósito”, práticas que vão além das exigências básicas previstas nas políticas públicas e procuram responder às necessidades específicas de cada público.

“Estamos planejando e documentando a transformação que almejamos promover na vida das pessoas atendidas. A cadeia parte dos problemas enfrentados por crianças, adolescentes e pessoas em situação de rua até chegar ao cenário que esperamos ajudar a construir”, explica André Alencar, coordenador de Projetos Sociais da ADRA Brasil.

O trabalho dará origem a duas instruções operacionais: uma destinada aos serviços para pessoas em situação de rua e outra voltada ao acolhimento institucional de crianças e adolescentes. A previsão é que os documentos sejam publicados em novembro, depois de novas reuniões e da consolidação das contribuições.

Referência comum sem ignorar diferenças

Participantes trocaram experiências e discutiram práticas adotadas nos projetos da ADRA Brasil. (Foto: ADRA)

A construção dos documentos ocorre em um contexto de ampliação dos projetos sociais da ADRA no país. Até agora, a gestão descentralizada fazia com que cada regional desenvolvesse práticas a partir das demandas e experiências locais.

A proposta não é tornar todos os serviços iguais, mas estabelecer um padrão mínimo de operação e uma identidade comum. As orientações deverão ser adaptadas às características das pessoas atendidas em cada território.

“Em um serviço com maior presença de mulheres, por exemplo, é necessário oferecer atenção específica às necessidades delas. O mesmo vale para crianças em maior situação de vulnerabilidade ou para pessoas com deficiência”, afirma Alencar. “O que estamos definindo não é apenas o que fazer, mas como fazer bem feito e cumprir um propósito.”

Para Herbert Boger, diretor da ADRA Brasil, a iniciativa fortalece a atuação da organização sem desconsiderar as diferenças regionais.

“Estabelecer uma referência nacional não significa tornar todos os projetos iguais. Significa assegurar que, em qualquer lugar do país, as pessoas reconheçam no atendimento a seriedade, o cuidado e o compromisso da ADRA com a transformação de vidas”, afirma.

Desafios que ultrapassam o acolhimento

Encontro reuniu equipes que atuam no acolhimento de crianças, adolescentes e pessoas em situação de rua. (Foto: ADRA)

No Rio Grande do Sul, Sabrina Ferreira coordena o atendimento à população em situação de rua no Abrigo Bom Jesus. Segundo ela, os profissionais lidam diariamente com casos marcados pelo rompimento de vínculos familiares, sofrimento psíquico, vulnerabilidade social e uso de substâncias psicoativas.

Além do atendimento aos usuários, um dos desafios é manter as equipes preparadas para situações complexas. O trabalho envolve capacitações, reuniões de alinhamento, oficinas e ações que incentivam a participação das pessoas acolhidas nas decisões relacionadas ao próprio atendimento.

“A troca com outros serviços permite compartilhar soluções, conhecer novas estratégias e construir ferramentas que possam ser adaptadas a cada realidade”, diz Sabrina. “Mesmo enfrentando desafios diferentes, todos temos o mesmo propósito: oferecer um atendimento cada vez mais organizado e de qualidade.”

Reconstrução de vínculos

Atividades contribuíram para a construção coletiva das instruções operacionais da ADRA Brasil. (Foto: ADRA)

Nos serviços destinados a crianças e adolescentes, o acolhimento é uma medida de proteção temporária. O trabalho deve envolver não apenas quem está acolhido, mas também os familiares, responsáveis e os demais órgãos que integram a rede de proteção.

Assistente social e gerente de acolhimento institucional em Minas Gerais, Gleice Rocha atua nessa área há cerca de dez anos. Ela explica que o objetivo é superar a situação que provocou o afastamento e, quando possível, viabilizar o retorno à família de origem ou à família extensa.

“A criança não chega ao serviço porque quer. Ela chega porque alguma coisa aconteceu. Por isso, precisamos oferecer acolhida, escuta qualificada e sensibilidade para trabalhar os sentimentos e as violações vivenciadas”, afirma.

Além da “Comida Afetiva”, as equipes mineiras desenvolvem atividades literárias e projetos de educação para a cidadania. Em uma das iniciativas, adolescentes produziram um livro que reuniu receitas culinárias e poesia. Em outra, passaram a conhecer os serviços públicos, as instituições municipais e o processo de criação das leis.

Para Gleice, o encontro permitiu aproximar profissionais que trabalham em contextos distintos, mas enfrentam responsabilidades semelhantes.

“Cada região tem sua história e sua maneira de desenvolver o trabalho, mas temos um eixo principal que orienta aquilo que fazemos. Construir juntos fortalece os serviços e amplia nossa capacidade de cuidar”, conclui.

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