Por Paulo Lopes, Presidente da ADRA Internacional
“Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça. Defendam o oprimido. Lutem pelo direito do órfão; defendam a causa da viúva.” — Isaías 1:17 (NVI)
Cresci em uma tradição que ensinava que a compaixão era uma virtude. E ela é. Mas, ao longo de uma vida dedicada ao trabalho humanitário, cheguei a acreditar em algo que às vezes deixa as pessoas desconfortáveis: compaixão sem ação é incompleta.
Sentir-se tocado pelo sofrimento de alguém não é o mesmo que fazer algo a respeito. Simpatia não é justiça. E, em um mundo onde milhões de pessoas passam fome, estão deslocadas ou são privadas da dignidade básica, a distância entre sentir e agir importa enormemente.
A distância confortável das boas intenções
Existe um tipo de compaixão que nos mantém confortáveis. Sentimos pena da pessoa necessitada. Talvez até façamos uma doação. E então seguimos em frente, tranquilos por acreditarmos que somos pessoas que se importam.
Mas Isaías não diz “sintam profundamente pelos oprimidos”. Ele diz: busquem a justiça. Defendam. Lutem pela causa. Pleiteiem. Estes são verbos de envolvimento, não de observação. Eles exigem que nos aproximemos do problema, não apenas que o reconheçamos à distância.
Ao longo dos anos servindo comunidades ao redor do mundo, encontrei pessoas de extraordinária compaixão. Pessoas com corações genuinamente sensíveis. Mas também observei que a sensibilidade, sozinha, nem sempre se transforma na coragem de confrontar sistemas injustos, defender mudanças estruturais ou permanecer ao lado de quem sofre por longos períodos. Isso exige algo mais. Exige disposição para permitir que a compaixão nos custe alguma coisa.
Justiça é uma forma de amor
Algumas pessoas separam justiça e amor, como se pertencessem a categorias diferentes. Na minha tradição de fé e na minha experiência, elas são inseparáveis.
Amar alguém é desejar mais do que o conforto imediato dessa pessoa. É desejar que as condições da sua vida reflitam a dignidade que Deus colocou nela. Isso significa água limpa, sim. Abrigo emergencial, sim. Mas também significa continuar curioso sobre por que tantas comunidades ao redor do mundo continuam enfrentando as mesmas dificuldades geração após geração e perguntar o que pessoas de fé podem fazer para ajudar a romper esses ciclos.
Na ADRA, oferecemos assistência emergencial porque as pessoas precisam de ajuda agora. Mas também investimos em desenvolvimento de longo prazo, em soluções lideradas localmente, em um tipo de trabalho que devolve poder às comunidades em vez de criar dependência. Essa mudança do socorro para a restauração, da caridade para a justiça, não é um afastamento da compaixão. É a compaixão amadurecida.

Paulo Lopes, Presidente da ADRA Internacional, visita projetos da ADRA na República Democrática do Congo. [Crédito da foto: Rudy Kimvuidi]
O que a ação realmente exige
Quero ser sincero com você: unir compaixão e ação é mais difícil do que parece. Isso significa permanecer envolvido quando o problema não é resolvido rapidamente. Significa ouvir as comunidades em vez de presumir que sabemos do que elas precisam. Significa confrontar nosso próprio desconforto quando o que vemos desafia nossas suposições sobre como o mundo funciona.
Também significa aceitar que justiça não é um único ato dramático. Ela é construída em milhares de decisões comuns: se estaremos presentes de forma consistente, se contaremos histórias verdadeiras sobre as pessoas que servimos, se usaremos nossa voz em favor daqueles que raramente são ouvidos.
Sou brasileiro. Cresci entendendo profundamente a desigualdade, e isso me moldou. Isso me deu uma esperança persistente de que as coisas podem ser diferentes. Não por meio da raiva, mas pelo trabalho fiel e constante de pessoas que acreditam que a visão de Deus para a humanidade é melhor do que aquilo com que tantas vezes nos conformamos. Essa esperança, sustentada com delicadeza e oração, é o que a justiça parece na prática.
Um convite aos dois
Não estou pedindo que você abandone a compaixão. Por favor, entenda: o mundo precisa de mais dela, não menos. O calor humano importa. A generosidade importa. O impulso de ajudar quando você vê alguém lutando. Honre esse impulso e siga-o.
Mas permita que a compaixão leve você a algum lugar. Permita que ela desperte perguntas que você nunca pensou em fazer. Permita que ela o torne curioso sobre as causas profundas dos problemas. Permita que ela amplie seu círculo de preocupação para além daqueles que você consegue alcançar facilmente.
As palavras de Isaías foram escritas para um povo que não havia abandonado a adoração. Eles ainda mantinham as práticas religiosas. O que haviam perdido era a conexão entre sua fé e suas ações no mundo. O chamado do profeta não era para sentir mais. Era para agir de forma diferente.
Justiça não é uma opção para aqueles que afirmam seguir um Deus que, como dizem as Escrituras, ama a justiça. Ela é a expressão natural de tudo aquilo em que acreditamos sobre o valor da vida humana e o caráter de Deus.
Portanto, sejamos compassivos. Mas também sejamos corajosos. Levemos nossa ternura até o ponto em que ela se transforme em ação e vejamos o que Deus fará a partir daí.
Artigo original: https://adra.org/justice-is-not-optional-why-compassion-must-be-paired-with-action



