Dez anos depois, ex-diretor da ADRA revela os bastidores da criação da Carreta Solidária

Jeff Kern conta como uma lavanderia móvel, refeições prontas em 15 minutos e a necessidade de chegar mais rápido às áreas atingidas ajudaram a tirar o projeto do papel

Jeff Kern estava a milhares de quilômetros do Rio Grande do Sul quando reconheceu, entre as imagens das enchentes de 2024, um projeto que havia ajudado a criar.

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A Carreta Solidária da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) havia chegado a Igrejinha, no Vale do Rio Paranhana. Entre as pessoas afetadas estavam alguns de seus tios. Naquele momento, a emergência que ele acompanhava a distância ganhou uma dimensão ainda mais pessoal.

Jeff Kern durante a construção da Carreta Solidária, realizada pela TruckVan, em São Paulo. (Foto: Arquivo pessoal)

“Foi como se fosse um ciclo completo. Pude participar de um projeto tão importante e, no fim, ver que ele acabou ajudando a minha própria família no Sul”, conta.

Quase uma década antes, quando era diretor da ADRA Brasil, Jeff participou da concepção da unidade móvel. A ideia surgiu de uma inquietação comum às grandes emergências: como chegar mais rápido?

Ao completar dez anos, a história da Carreta Solidária revela decisões, adaptações e até coincidências que ajudaram a transformar uma proposta desenhada em Brasília em uma estrutura capaz de atravessar o país para atender populações atingidas por desastres.

Quando a ajuda levava uma semana

Projeto técnico da Carreta Solidária é revisado durante a etapa de desenvolvimento da unidade móvel. (Foto: Arquivo pessoal)

Antes da criação da carreta, a ADRA já atuava em calamidades com a entrega de colchões, alimentos, água e recursos financeiros. Segundo Jeff, entretanto, muitas vezes essas ações começavam cerca de uma semana depois do desastre, quando a situação já estava um pouco mais estabilizada.

Os donativos continuavam necessários, mas faltava uma estrutura própria que permitisse chegar ainda nos primeiros momentos da emergência.

“Eu sempre acreditei que precisávamos de uma forma mais ágil de responder”, relembra.

Foi a partir dessa necessidade que o projeto começou a ser construído. A proposta inicial era desenvolver um veículo capaz de transportar mantimentos e equipamentos e, ao mesmo tempo, funcionar como uma base de atendimento.

A ideia ganhou novos elementos à medida que experiências de diferentes lugares foram reunidas.

A inspiração veio de uma pequena lavanderia

Carreta Solidária reúne estruturas de cozinha, lavanderia e apoio psicossocial para atuação em situações de emergência. (Foto: ADRA Brasil)

A primeira referência surgiu durante uma visita à ADRA Argentina. O escritório do país utilizava um pequeno trailer de lavanderia nas respostas a emergências.

A estrutura era simples, mas eficaz. Jeff e a equipe perceberam que o mesmo conceito poderia ser aplicado em uma escala maior no Brasil.

A segunda ideia foi acrescentar uma cozinha capaz de fornecer alimentação imediatamente às pessoas que haviam perdido suas casas ou não tinham condições de preparar as próprias refeições.

A terceira frente surgiu com o apoio da equipe da ADRA em São Paulo, que já atuava em parceria com a Defesa Civil. A carreta ganhou uma área central destinada ao atendimento psicossocial, às reuniões e à coordenação das operações.

O resultado foi uma unidade que reunia, no mesmo espaço, alimentação, lavanderia, acolhimento e organização das equipes em campo.

Uma refeição em 15 minutos

Voluntárias preparam refeições na cozinha da Carreta Solidária durante uma ação da ADRA. (Foto: ADRA Brasil)

Nos primeiros planos, a cozinha da carreta não seria usada para preparar refeições convencionais.
No lançamento do projeto, a ADRA adquiriu um alimento desidratado que ficava pronto em aproximadamente 15 minutos. Bastava aquecer a água e acrescentar a mistura.

O objetivo era evitar longos períodos de preparo. Assim que chegasse ao local da emergência, a equipe poderia começar a servir as famílias.

A experiência mostrou, no entanto, que a estrutura permitia fazer mais. O alimento desidratado foi substituído por comida convencional, preparada com a participação dos voluntários.

Para o ex-diretor, essa mudança se tornou uma das maiores qualidades do projeto.

“Devemos sempre ter pessoas envolvidas no trabalho da carreta. Os voluntários que cozinham e cuidam de todo o preparo são essenciais. Considero isso um verdadeiro golaço que a carreta conseguiu marcar”, afirma.

Na concepção original, o veículo ficaria estacionado em São Paulo. A localização permitiria alcançar, em um período estimado de 24 a 30 horas, o território inicialmente previsto para sua atuação, entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul.

Recuperar o que a lama não levou

Voluntárias atuam na lavanderia da Carreta Solidária, estrutura criada para ajudar famílias a recuperar roupas e peças de cama após desastres. (Foto: ADRA Brasil)

A lavanderia não foi incluída apenas por uma questão operacional. Por trás das máquinas havia uma preocupação com a dignidade das famílias.

Ao analisar os desastres registrados no Brasil, a equipe percebeu que muitas emergências estavam relacionadas à água, como enchentes, deslizamentos e rompimentos de barragens. Nessas situações, roupas, cobertores e peças de cama podem ficar cobertos de lama, mas nem sempre estão perdidos.

A proposta era permitir que as famílias lavassem e recuperassem seus pertences, em vez de simplesmente descartá-los e depender da doação de roupas usadas.

“A concepção do projeto sempre buscou a dignidade. Não queríamos que as pessoas precisassem se desfazer de seus pertences quando ainda era possível reaproveitá-los”, explica Jeff.

O eixo que acelerou a construção

Voluntárias operam máquinas industriais na lavanderia da Carreta Solidária, utilizada para lavar e secar roupas de famílias atingidas por desastres. (Foto: ADRA Brasil)

O projeto começou com um fundo de US$ 50 mil da ADRA Internacional. Outros recursos foram agregados para viabilizar a construção em parceria com a ADRA Sul-Americana.

No início, nem todos compreenderam exatamente o que estava sendo proposto. Em determinado momento, parte da administração entendeu que se tratava de um caminhão comum que receberia apenas uma identidade visual personalizada.

À medida que os detalhes técnicos foram apresentados, ficou claro que o projeto era mais amplo.
A construção foi realizada pela TruckVan, em São Paulo. A empresa havia sido indicada por Paulo de Tarso, que atuava no estado e, posteriormente, tornou-se diretor da ADRA no Rio Grande do Sul.

A ADRA chegou a solicitar orçamentos a outros fornecedores. Quando soube que havia concorrentes na negociação, a TruckVan procurou a organização com uma informação que ajudaria a acelerar o processo: a empresa já tinha um eixo disponível para iniciar a construção.

O equipamento poderia ser oferecido por um valor acessível, mas era necessário fechar o negócio rapidamente para não perder a oportunidade.

Aquele detalhe técnico encurtou o caminho entre a ideia e a montagem da carreta. A empresa também auxiliou na escolha dos equipamentos industriais, entre eles o fogão e as máquinas de lavar.

O nome não estava nos planos

Estrutura interna da Carreta Solidária durante a fase de construção da unidade móvel. (Foto: Arquivo pessoal)

Enquanto a parte técnica avançava, ainda faltava decidir como o projeto seria apresentado ao público.

Jeff havia pensado em uma denominação mais descritiva, como “unidade móvel de emergência”. O nome que se tornaria conhecido em diferentes regiões do país surgiu na área de comunicação.

“Carreta Solidária” foi uma sugestão de Jessica Fontella, que trabalhava na área de mídia da ADRA Brasil. A expressão foi criada durante a mobilização de recursos para a construção do veículo.

“É um nome muito brasileiro. Foi uma ideia muito boa e ficou muito acertado”, avalia Jeff.

O projeto foi desenvolvido em Brasília, construído em São Paulo e aprimorado, ao longo dos anos, pelas equipes responsáveis por colocá-lo em funcionamento durante as emergências.

O primeiro grande teste veio com a lama

Carreta Solidária na fase final de construção, antes de receber a identidade visual da ADRA. (Foto: Arquivo pessoal)

Jeff considera a enchente em Rolante, no Rio Grande do Sul, a primeira grande operação em que a Carreta Solidária demonstrou o potencial imaginado durante sua criação.

A cidade estava coberta de lama quando a unidade chegou, menos de dois dias depois do desastre. A estrutura foi instalada para atender os bairros afetados.

A rapidez marcava uma mudança importante. Se antes a ajuda levava cerca de uma semana para chegar, agora a organização dispunha de uma unidade capaz de entrar em operação ainda nos primeiros dias da calamidade.

“Até hoje a carreta é muito lembrada por lá por causa daquela enchente”, diz.

Anos mais tarde, outra grande inundação levaria novamente a Carreta Solidária ao Rio Grande do Sul. Em 2024, ela chegou a Igrejinha, justamente na região de origem da família de Jeff.

O veículo criado para diminuir distâncias em uma emergência acabou cruzando uma distância ainda mais simbólica. O projeto que nasceu enquanto ele dirigia a ADRA Brasil chegava, dessa vez, até pessoas de sua própria família.

“Sempre acreditei que deveríamos ter não apenas a imagem, mas também o impacto e a capacidade real de estar presentes e apoiar”, afirma. “Para mim, foi um grande privilégio participar disso.”

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