Ação percorreu mais de 200 casas; dificuldade de acesso à água potável e insegurança alimentar estão entre as principais demandas
Uma mobilização da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) reuniu 130 voluntários e percorreu mais de 200 residências do Vergel do Lago, em Maceió, no domingo (2). Durante a ação, 150 famílias responderam a um questionário socioeconômico que será usado para definir futuras iniciativas na comunidade.
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O Vergel do Lago é um dos maiores bairros de Maceió e está entre os três com maior número de famílias em situação de vulnerabilidade social.

Ação reuniu 130 voluntários para ouvir os moradores e identificar as principais necessidades da comunidade. (Foto: ADRA Alagoas)
Divididos em equipes, os participantes visitaram os moradores de porta em porta e entregaram kits de higiene. O levantamento apontou como demandas recorrentes o acesso à água potável, a segurança alimentar, o apoio à educação de crianças e adolescentes e a criação de oportunidades de capacitação profissional, emprego, geração de renda e empreendedorismo.
A atividade integrou a etapa prática do Embaixadores da ADRA, treinamento que prepara voluntários para atuar em ações humanitárias e projetos de desenvolvimento comunitário.
Segundo Carla Fontes, diretora da ADRA em Alagoas, os moradores receberam as equipes de forma acolhedora. Alguns afirmaram que se sentiram lembrados e valorizados com a visita; outros disseram que a presença dos voluntários era uma “resposta às suas orações”.
Água, alimentação e renda

Durante as visitas, 150 famílias responderam ao questionário socioeconômico aplicado pelas equipes. (Foto: ADRA Alagoas)
Os dados coletados serão organizados a partir de indicadores sociais para que a ADRA consiga identificar as vulnerabilidades e também os recursos existentes no bairro. A organização pretende usar o diagnóstico para estabelecer prioridades e decidir onde concentrar pessoas, parcerias e recursos.
“Esse diagnóstico será um instrumento estratégico para orientar o planejamento de projetos, priorizar demandas e direcionar recursos de forma mais eficiente”, afirma Carla.
Um dos casos que mais chamaram a atenção das equipes foi o de um casal com duas crianças menores de cinco anos. A família vive em uma residência sem banheiro, com problemas de insalubridade e risco de desabamento do teto e das paredes. A situação também envolve necessidades de assistência social e de saúde. Os nomes e o endereço não foram divulgados para preservar os moradores.
Para a diretora, casos como esse mostram que parte das demandas exigirá uma atuação conjunta entre organizações da sociedade civil e o poder público.
“Enxerguei a menina que um dia fui”
As visitas também despertaram lembranças na professora e voluntária Milaedy Gardênia. Ao entrar em casas pequenas, algumas sem acesso adequado à água tratada, ela reconheceu situações semelhantes às que enfrentou na infância.
Milaedy foi criada apenas pela mãe até os seis anos. Sem ter frequentado a escola, a mãe não sabia ler nem escrever e trabalhava como empregada doméstica. Durante esse período, as duas dormiam nos quartos de serviço das casas onde ela trabalhava. Milaedy também não tinha registro civil, documento que obteve depois, por iniciativa do pai adotivo.
Mais tarde, a família viveu em casas de dois cômodos, sem banheiro nem pia. Em uma delas, na Vila Brejal, dez famílias dividiam dois banheiros e três tanques para lavar roupas e louças.
“Ao olhar para aquelas crianças do Vergel, eu enxerguei um pouco da menina que um dia eu fui”, diz.
Foi a educação, segundo Milaedy, que mudou sua trajetória. Ela levou os estudos adiante, tornou-se professora e hoje atua como voluntária em atividades de leitura, escrita e letramento com crianças.
Para ela, a experiência reforçou que qualquer projeto precisa começar pelo conhecimento da realidade e pela escuta dos moradores. “Servir é muito mais do que entregar um kit ou realizar uma ação social”, afirma.
Retorno previsto para setembro

Voluntários da ADRA percorrem as ruas do Vergel do Lago durante mobilização que visitou mais de 200 residências. (Foto: ADRA Alagoas)
A definição dos projetos que serão implantados no Vergel ocorrerá depois da consolidação e da análise dos questionários. Paralelamente, a ADRA busca parceiros, instituições e doadores para viabilizar as iniciativas.
O cronograma inicial prevê visitas mensais à comunidade em setembro e outubro, em parceria com a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Entre 18 e 20 de novembro de 2026, o bairro também deverá receber uma mobilização do projeto Together, com mais de 250 missionários. A programação será voltada a ações sociais e comunitárias, mas as atividades ainda não foram detalhadas.



