No Dia Internacional da Educação, iniciativa em Parnamirim mostra como o acesso tardio à leitura pode devolver autonomia, renda e dignidade
No dia 24 de janeiro, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Educação, os números ajudam a dimensionar um desafio ainda distante de ser superado. No Brasil, mais de 11 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever, segundo dados recentes do IBGE. A estatística, muitas vezes tratada de forma abstrata, ganha contornos concretos em histórias individuais, como as que emergiram do Projeto Recomeçar, desenvolvido no Rio Grande do Norte.

A educação como ponto de partida para novos caminhos e mais autonomia na vida adulta. (Foto: ADRA)
A iniciativa é da ADRA – Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais, organização humanitária ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia, presente em mais de 110 países. No Núcleo da ADRA em Parnamirim, na região metropolitana de Natal, o projeto nasceu de uma percepção simples e incômoda: havia adultos na comunidade que nunca haviam sido alfabetizados.
“Uma voluntária participou de um projeto social e percebeu que muitas pessoas da comunidade não sabiam ler. A partir dessa realidade, nasceu a ideia do Renascer”, explica Cristiane Martinez, coordenadora regional da ADRA no RN. O objetivo era direto e essencial: ensinar adultos a ler e escrever, criando condições mínimas para que pudessem se inserir com mais autonomia na vida social e profissional.

Aprender a ler e escrever pode transformar rotinas, fortalecer a autoestima e abrir novas oportunidades. (Foto: ADRA)
O público atendido foi composto por adultos não alfabetizados, moradores da região próxima ao núcleo. Ao longo do tempo, algumas turmas foram formadas. Em 2025, cinco pessoas participaram das aulas. Pouco, à primeira vista, mas suficiente para evidenciar um impacto profundo. “Mesmo com pouca adesão, o que mais marcou foi o interesse sincero e a vontade de aprender demonstrados por aqueles que participaram”, afirma Cristiane.
O Projeto Recomeçar não está ativo neste momento, mas deixou aprendizados claros. “Ele revelou uma necessidade real de alfabetização de adultos na comunidade e mostrou que, mesmo com turmas pequenas, o impacto na vida dos participantes é significativo”, avalia a coordenadora. A experiência também trouxe ajustes práticos, como a importância do vínculo, da constância e de estratégias que favoreçam a permanência dos alunos. A expectativa é que o projeto volte a funcionar em 2026, agora fortalecido por essas lições.
No centro da proposta esteve a educação, não como conceito abstrato, mas como ferramenta de reconstrução pessoal. “Aprender a ler e escrever muda a forma como a pessoa se vê e se coloca no mundo. Mesmo com passos pequenos, o aprendizado trouxe mais confiança e sensação de pertencimento”, resume Cristiane.
Um novo começo

Paula Ferreira da Costa, sentada ao centro, é uma das participantes do Projeto Recomeçar, iniciativa que mostra como a educação pode mudar trajetórias. (Foto: ADRA)
Uma dessas transformações tem nome e sobrenome. Paula Ferreira da Costa, vendedora, descobriu que sua vida profissional havia estacionado por um motivo básico: ela não conseguia ler. O contato com clientes acontecia majoritariamente por mensagens de WhatsApp, e Paula dependia do filho, da irmã ou do marido para responder. “Eu sempre priorizei o aprendizado deles. Trabalhei muito cedo, não tive tempo de estudar”, relata.
Ao saber que uma professora ofereceria aulas semanais no núcleo da ADRA, decidiu tentar. “A precisão era grande”, diz, usando a palavra como sinônimo de urgência. Com apenas um encontro por semana, os avanços vieram. “Hoje eu leio, respondo meus clientes. Meu filho e minha irmã disseram que eu desenvolvi muito.” O próximo objetivo já está traçado: tirar a carteira de motorista, algo que tentou por três vezes sem sucesso por causa da dificuldade com a leitura.

Projeto Recomeçar promove alfabetização de adultos e reforça o papel da educação na construção da dignidade. (Foto: ADRA)
O depoimento de Paula ajuda a compreender por que projetos educacionais como o Recomeçar extrapolam a sala de aula. “A educação transforma a forma como a pessoa se posiciona no mundo”, afirma Cristiane, que foi professora antes de assumir a coordenação regional. “Por meio desses projetos, a ADRA amplia oportunidades e oferece recomeços reais.”



