Iniciativa capacitou pessoas em Porto Alegre, unindo formação profissional, empreendedorismo e apoio financeiro para retomada da autonomia após a tragédia climática de 2024
Quando as águas da enchente de 2024 baixaram no Rio Grande do Sul, o que ficou para milhares de famílias não foi apenas a lama dentro de casa, mas a incerteza sobre como seguir vivendo do próprio trabalho. Em Porto Alegre, pequenos empreendedores perderam ferramentas, máquinas e estoques e, com eles, a renda e o horizonte imediato de recomeço.
Leia também:
Projeto da ADRA usa atividade física como apoio no tratamento da depressão e da ansiedade no Nordeste
Um ano depois, parte dessa história começa a ganhar novos contornos. O Projeto Reconstruindo com Dignidade, iniciativa da ADRA Brasil, encerrou seu ciclo com a formação de 68 participantes em ofícios voltados à geração rápida de renda e ao fortalecimento do microempreendedorismo. O evento de encerramento e entrega de certificados ocorreu em janeiro de 2026, na região do bairro Farrapos, em Porto Alegre.

Momento da cerimônia de encerramento e entrega dos certificados do Projeto Reconstruindo com Dignidade, realizado pela ADRA Brasil em Porto Alegre. (Foto: ADRA)
A proposta foi simples na forma, mas ambiciosa no impacto: capacitar pessoas afetadas pela enchente em áreas como manicure e pedicure, cabeleireiro, barbeiro, corte e costura e artesanato em madeira, aliando prática profissional a noções de empreendedorismo e gestão financeira. Ao final da formação, cada participante recebeu um voucher de R$ 1.875 para a aquisição de materiais ou equipamentos, possibilitando o início imediato do próprio negócio.
“O foco nunca foi apenas ensinar uma técnica, mas promover autonomia”, explica Lívia Palma, coordenadora do projeto. “Muitos alunos começaram com medo, sem qualquer contato prévio com a atividade escolhida. Ao longo das aulas práticas e da formação em empreendedorismo, eles passaram a se enxergar como capazes de gerar renda e tomar decisões sobre o próprio futuro.”
Segundo a coordenação, o resultado foi além do esperado. Parte dos participantes encerrou o projeto com negócios já estruturados, ateliês de costura, oficinas de artesanato em madeira e salões de beleza em funcionamento. Outros passaram a atuar como renda complementar, atendendo a domicílio ou nos fins de semana, conciliando o novo ofício com atividades anteriores.

Registro de uma das oficinas práticas realizadas ao longo do Projeto Reconstruindo com Dignidade, que capacitou participantes para a geração de renda após a enchente no RS. (Foto: ADRA)
Para Janaína Lousado, moradora das ilhas de Porto Alegre, o projeto representou um divisor de águas. Aos 40 anos, após perder novamente o sustento com a enchente, apenas 26 dias depois de reabrir o negócio da família, ela decidiu se permitir um recomeço profissional. “Foi o momento de repensar a vida e aceitar uma nova profissão. Hoje estou trabalhando, atendendo pessoas e reconstruindo não só a renda, mas a confiança em mim mesma”, relata.
Histórias semelhantes se repetem entre os participantes. Solange Maria Pereira, de 50 anos, chegou ao curso de corte e costura sem nunca ter colocado linha na agulha. Saiu vendendo peças, formando parcerias e planejando novos produtos. Fabrício Francisco César, de 44 anos, descobriu no artesanato em madeira uma alternativa concreta de sustento após perder quase tudo dentro de casa.

Atividade de capacitação profissional durante as oficinas do Projeto Reconstruindo com Dignidade, promovidas pela ADRA Brasil em Porto Alegre. (Foto: ADRA)
Além da capacitação técnica e do incentivo financeiro, o projeto buscou fortalecer vínculos comunitários e oferecer suporte emocional. “A insegurança, a vergonha e o medo aparecem com frequência. Mas também aparece uma vontade enorme de mudar”, afirma Lívia. “Cada certificado entregue representa esforço, coragem e esperança renovada.”
Executado por uma equipe multidisciplinar, com professores das oficinas práticas e aulas de empreendedorismo, o projeto ainda incorporou orientações sobre redução de riscos de desastres e resiliência comunitária, um aprendizado considerado essencial em um estado que ainda convive com a ameaça de novos eventos extremos.

Iniciativa da ADRA Brasil promove geração de renda, autonomia e recomeço para pessoas impactadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. (Foto: ADRA)
A demanda, no entanto, segue maior do que a capacidade atual. A coordenação estuda formas de ampliar a iniciativa e acompanhar de perto os novos empreendedores nos primeiros meses de atuação. “Quando se investe em pessoas, os resultados continuam depois do encerramento formal do projeto”, resume Lívia.
No Rio Grande do Sul que ainda tenta se reorganizar após a maior tragédia climática de sua história recente, a reconstrução nem sempre começa com grandes obras. Às vezes, começa com uma máquina de costura, uma caixa de ferramentas ou um kit de beleza, e com a possibilidade concreta de voltar a viver do próprio trabalho.



