Por Paulo Lopes, Presidente da ADRA Internacional
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.” — Mateus 5:16 (NVI)
Alguns dos sermões mais poderosos que já testemunhei não foram pregados de um púlpito.
No início deste ano, estive diante de uma estação de abastecimento de água recuperada e de uma escola que havia ganhado uma nova vida em uma vila no sul de Idlib, na Síria. Os moradores da comunidade me entregaram uma carta de agradecimento. Nela, escreveram que o projeto de abastecimento de água não era “apenas” um serviço. Representava a restauração de um recurso essencial à vida e da dignidade humana. As novas salas de aula, disseram, transmitiam uma mensagem de esperança às crianças: a de que ainda é possível ter um futuro.
Ninguém naquela vila perguntou em que a ADRA acredita, mas, ainda assim, aprenderam algo sobre nós.
Estamos sempre pregando
Jesus deu uma orientação marcante aos Seus seguidores no Sermão do Monte. Ele não disse: “Façam com que ouçam suas palavras.” Ele disse: “Façam com que vejam suas boas obras.”
Isso transforma a maneira como penso sobre nosso trabalho na ADRA. Quando distribuímos alimentos, montamos um abrigo, respondemos a uma enchente ou nos sentamos ao lado de um pai ou de uma mãe traumatizados, não estamos nos afastando da missão da Igreja. Estamos vivendo essa missão.
Em muitos dos lugares onde a ADRA atua, as pessoas talvez nunca entrem em uma igreja, ouçam um sermão ou abram uma Bíblia. Mas elas terão contato conosco. E, pela maneira como as tratamos, formarão uma impressão sobre quem somos, no que acreditamos e, em última análise, sobre como Deus é.
Estamos pregando todos os dias, durante todo o ano. A única questão é o que o nosso serviço está comunicando.
Fundamentados na Bíblia
Essa não é uma ideia nova. A Bíblia contém mais de 2 mil passagens sobre pobreza, justiça, compaixão e cuidado com as pessoas em situação de vulnerabilidade. Os profetas falaram sobre esses temas com firmeza. Algumas das leis civis mais importantes de Israel foram estabelecidas para proteger os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros. Ellen White escreveu amplamente sobre o ministério da compaixão e a importância de revelar o caráter de Cristo por meio de atos práticos de amor.
E Jesus definiu Sua própria missão desta forma: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.” O serviço não era uma atividade secundária em Seu ministério. Era parte central dele.
É por isso que, enquanto a Igreja destaca a mensagem “Fundamentados na Bíblia, Focados na Missão”, acredito que o trabalho da ADRA ocupa um lugar central nesse propósito. A ação humanitária não está separada do evangelho. Ela é uma expressão visível dele.
O testemunho que as pessoas guardam na memória
Durante uma resposta humanitária, as pessoas observam muito mais do que imaginamos. Elas percebem como falamos sob pressão, como tratamos os mais vulneráveis, como administramos os recursos e como agimos quando estamos exaustos. Qualquer pessoa pode falar sobre compaixão quando tudo está tranquilo. É em meio ao caos que a verdadeira compaixão se revela.
Muitas das comunidades que atendemos já ouviram promessas demais. Viram organizações chegarem e depois desaparecerem. Quando encontram pessoas que escutam com respeito, servem com honestidade e permanecem ao seu lado, algo começa a mudar. A confiança começa a crescer.
As pessoas podem questionar nossas palavras. Mas raramente questionam a compaixão genuína.
Tiago nos lembra que a fé sem obras é morta. Mas não acredito que estejamos acrescentando obras à fé. Estamos revelando a fé por meio das obras.
Apontando para além de nós mesmos
Jesus também explicou o motivo: para que as pessoas “glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”. O objetivo não é fazer com que alguém diga: “Como a ADRA é impressionante!” O que desejamos é que as pessoas possam enxergar um pouco do caráter de Deus na maneira como servimos.
Isso orienta tudo o que fazemos. Significa servir com humildade, e não por vaidade; com integridade, e não buscando atalhos; com respeito, e não com sentimento de superioridade; e com constância, não apenas quando é conveniente.
É também por isso que a ADRA atende às pessoas de acordo com suas necessidades, nunca com base em suas crenças. Não servimos porque as pessoas acreditam no mesmo que nós. Servimos porque nós acreditamos, e nosso serviço é uma expressão dessa fé.
Um sermão vivido
Para muitas das pessoas que encontramos, a ADRA pode ser o único sermão que elas verão em toda a vida. Não um sermão pregado, mas vivido.
Portanto, a questão não é se estamos pregando, mas qual mensagem nossa maneira de servir está transmitindo.
Que seja uma mensagem de justiça, compaixão e amor. E que aqueles a quem servimos não apenas se lembrem da ADRA, mas também possam reconhecer, por meio de nossas ações, um pouco do Deus a quem seguimos.



