Uma nova História

 em Notícias, Roraima
Marcel Peres é indígena da etnia Taurepang e saiu da Venezuela para recomeçar sua vida no Brasil

Por Lairyne Silva

Marcel Peres vive hoje na comunidade indígena chamada Tarau Paru, em Pacaraima.
Foto: 2021 ADRA|Lairyne Silva)

Morando há 2 anos em  Pacaraima, Marcel Peres, 32 anos, deixou a sua casa na Venezuela para vir morar no Brasil. Ele é indígena da etnia Taurepang e morava na comunidade Kumarakapay, localizada no município da Gran Sabana, Venezuela. Ele conta que devido a crise política, social e financeira do País, muitas pessoas protestavam por seus direitos e ele defendia isso, após ameaças contra sua segurança ele foi obrigado a fugir de casa. “Sofri ameaças contra minha vida após ir ás ruas e defender os direitos humanos e ir contra o atual governo. Denunciava os abusos, as tropas e as violações dos direitos humanos por parte dos funcionários do governo da Venezuela, por isso, eles começaram a me perseguir para me prender. Então me senti obrigado a fugir de lá”, relatou.

Marcel trabalhava na polícia e por ser funcionário, ele conta que não poderia falar mal da atual gestão do governo. Após alguns familiares deixarem o país, ele também conseguiu sair do local em segurança. E foi na comunidade de Tarau Paru em Pacaraima, município do estado de Roraima, que ele conseguiu abrigo. Ele conta que quando deixou sua casa, enfrentou dificuldades e que o Projeto ANA o ajudou a recomeçar. “Quando eu saí do meu país eu não tinha nada. Deixei tudo pra trás, foi quando tive a oportunidade de me cadastrar no Projeto ANA e receber o benefício.  A ajuda foi fundamental para me reerguer com minha família. Eu não tinha emprego, nem possibilidades de trabalho, sou agradecido por isso.”, disse feliz.  

Marcel Peres, sua esposa Kikey Nunes e os filhos, na comunidade de Tarau Paru.
Foto: 2021 ADRA|Lairyne Silva)

Em pouco tempo morando na comunidade de Tarau Paru, Marcel conheceu sua esposa Kikey Nunes, 26 anos, que também é indígena migrante da comunidade de Guaramacen, Venezuela. A esposa também é da etnia Taurepang, ela deixou sua casa e conseguiu abrigo em Tarau Paru. Juntos, a família tem 3 filhos e através do projeto conseguiram comprar alimentos, produtos de higiene e itens de casa como pratos, copos, colher, etc. “Eu vim em fevereiro de 2019 e meu motivo de sair da Venezuela foi porque teve um confronto em Santa Helena e na minha comunidade. Houve muito massacre, muitas pessoas perderam a vida e por isso muitos deixaram suas casas. Me sinto agradecida por ser acolhida no Brasil”, relembra Kikey Nunes.

Como forma de manter o sustento, a família conseguiu plantar macaxeira para consumo próprio. A plantação fica há 2 horas de distância de onde eles moram e Marcel teve que aprender noções agrícolas para manter a qualidade dos alimentos. Associado a isso, ele também coloca em prática o que aprendeu na comunidade onde ele morava: O artesanato. “Hoje eu trabalho na pequena plantação agrícola que construí pra minha família, plantamos macaxeira somente para consumir no dia a dia e isso foi algo que eu tive que aprender. Não podemos perder tempo e tenho que fazer de tudo para sobreviver. A outra atividade que faço é o artesanato, temos um espaço que mostramos nosso produto aqui em Tarau Paru e quem desejar nós vendemos ou aceitamos encomendas”, contou.

Esculturas em pedra de caulim, lapidadas e pintadas a mão por Marcel Peres.
Foto: 2021 ADRA| Lairyne Silva

Marcel faz lindas esculturas em pedras, algo que ele aprendeu ainda criança. A matéria prima é encontrada somente na Venezuela e se chama caulim, é de tonalidade branca e rosa. Cores diferentes e que chamam a atenção de quem vê. O trabalho é manual e exige delicadeza nos detalhes e na pintura. Apesar da produção ser pouca, o dinheiro que ele recebe complementa a renda de sua famílias. Marcel buscou outras alternativas de trabalho, pois, sabia que o benefício do projeto tem a duração apenas de 6 meses.

Em Tarau Paru, ele construiu uma pequena casa de madeira adquirida através de algumas doações. Apesar de ter uma moradia, a família ainda passa por algumas dificuldades. “Minha maior dificuldade hoje é a falta de emprego, de trabalho. É difícil comprar coisas para nossos filhos. Na Venezuela nós tínhamos uma profissão e aqui não temos. Não consigo fazer nenhum curso porque não posso deixar minha família, pois, dependem de mim. Se eu sair daqui e ir estudar quem vai alimentar meus filhos?”, disse entristecido.

Com planos futuros, Marcel pretende continuar morando no Brasil e devido o medo e a crise do seu país ele não pretende retornar. “Não pretendo regressar a Venezuela, mas, um dia se tudo melhorar pretendo apenas visitar minha família que ainda mora lá”, frisou. Na comunidade de Tarau Paru ele tem o sonho de construir uma escola de música para as crianças. “Meu pai é músico e eu cresci nesse ambiente, eu aprendi a tocar clarinete e saxofone, então tenho um sonho de abrir uma escola aqui onde eu moro para ensinar as crianças um pouco mais da música. Mas é preciso ter investimento e até o momento a oportunidade ainda não apareceu. Tenho esperanças de que um dia isso possa mudar”, disse esperançoso.

Projeto ANA

O Projeto ANA (Ações Alimentares e não Alimentares para Migrantes Venezuelanos no Brasil), tem o objetivo de  reduzir a insegurança alimentar de 31. 427 mil pessoas entre migrantes venezuelanos e brasileiros vivendo nas áreas afetadas das cidades de Boa Vista, Corredor Migratório de Roraima (Municípios de Iracema, Amajarí, Mucajaí, Caracaraí, Rorainópolis e Pacaraima) e Manaus, ao mesmo tempo que proporciona o acesso a itens domésticos básicos e artigos de higiene. Em Pacaraima atende também as 4 comunidades indígenas: Sakamota, Tarau Paru, Sorocaima e Bananal. O tipo de serviço consiste na entrega de vouchers (cartões com crédito)  para compra de produtos alimentícios, higiene, abrigo & assentamento, também são capacitados em promoção de higiene e sensibilização para melhor nutrição e combate a covid-19. O projeto funciona com a parceria da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e seus escritório FFP (Food for Peace) e OFDA (Office of U.S. Foreign Disaster Assistance).

Para conhecer mais projetos da ADRA Regional Roraima acesse:

REFEIÇÕES QUENTES: Refeições Quentes – ADRA Brasil

EMERGÊNCIA RORAIMA: Emergência Roraima – ADRA Brasil

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